Confiança importa no ciclismo?

 

Existe um conceito na física chamado energia potencial. É a energia armazenada, pronta para ser usada, mas que ainda não virou movimento. Você pode ter toneladas de energia potencial e zero energia cinética. Traduzindo: você pode ter tudo dentro de você e não transformar nada disso em resultado. 

Participei de um rachão. Aquele clima gostoso de competição entre amigos, todo mundo puxando, zoando, se divertindo e claro, competindo. Mas eu estou há alguns meses sem treinar direito, e isso pesou. Não no corpo, curiosamente. Pesou na cabeça.

Foram 96km com  40km/h de média, sem muita altimetria. Meu corpo mandava sinais de que estava pronto para atacar ou selecionar o grupo. A respiração controlada, as pernas respondendo, o ritmo confortável. Mas toda vez que pensava em atacar, em puxar o grupo, em realmente me soltar, algo travava. Hesitei. Fiquei no vácuo. Esperei o sprint.

Aí vem a parte interessante. Faltando 700 metros, um cara ataca. Naquele momento, eu sabia exatamente o que fazer. Iniciar meu sprint ali, colar na roda dele, usar o vácuo e guardar energia para explodir nos últimos 200 metros. Eu SABIA que tinha condicionamento para isso. Meu corpo estava pedindo para ir. Mas a mente disse não.

Esperei os outros adversários puxarem. Só iniciei meu sprint nos últimos 200 metros. Não deu tempo de chegar no cara que tinha atacado antes. Segundo lugar.

E aí veio aquela reflexão que eu já conheço, mas que viver novamente me fez ver com outros olhos: eu não perdi por falta de forma física. Perdi por falta de confiança. A mesma coisa que vejo acontecer com dezenas de assessorados, acabou acontecendo comigo. Energia potencial que não virou cinética.

E aqui vai um ponto que muita gente não conecta: confiança no ciclismo não se trata apenas de correr mais rápido ou atacar no momento certo. Se trata de descer aquela serra técnica com mais segurança porque você confia nas suas habilidades de controlar a bike. Se trata de fazer aquela curva fechada sem frear demais porque você confia no seu equilíbrio. Se trata de pedalar em grupo apertado sem tensão porque você confia que sabe se posicionar. Confiança permeia cada aspecto do ciclismo. Quando ela está alta, você pedala solto, toma decisões rápidas, aproveita mais. Quando está baixa, você fica travado em tudo, não só na parte competitiva.

 

O Paradoxo

Na VixCC, lido com isso diariamente. Atleta com números excelentes no TrainingPeaks que chega na prova e hesita. Cara que mantém 320W nos treinos mas na hora H só usa 280W porque não confia que aguenta mais. Eu SEI disso. Trabalho isso com cada assessorado. Mas viver aquilo me deu vontade de falar sobre!

Pensa comigo. Quantas vezes você já deixou de atacar/puxar um pouco mais forte/se desafiar… porque “não tinha certeza”? Quantas vezes não arriscou aquela descida técnica mesmo sabendo que tecnicamente conseguia? O corpo estava pronto. A mente bloqueou.

Tenho um assessorado que estava exatamente nisso. Números lindos nos treinos. Trabalhei isso com ele nos últimos meses. Não era falta de treino. Era falta de confiança para usar o que ele tinha. Mudamos a abordagem, incluímos simulações de prova, repetiçoes de trechos tecnicos, treino de sprint… Três meses depois, ele não só rendeu no nível dos treinos, como superou.

E agora eu tinha virado meu próprio caso clínico. Meses sem treinar direito, sem acumular pequenas vitórias, sem testar meus limites de forma consistente. Minha confiança tinha caído, mesmo que meu condicionamento base ainda estivesse lá.

 

A ciência

Albert Bandura descobriu há décadas: confiança é construída principalmente por experiências pessoais de sucesso. Cada vez que você completa algo difícil, sua confiança sobe. Cada vez que você falha ou simplesmente não testa, ela cai.

Eu sabia disso. Ensino isso. Mas tinha negligenciado em mim mesmo. As últimas experiências que eu tinha acumulado eram de treinos mal feitos, de hesitações, de não empurrar. Então quando chegou a hora de decidir no rachão, mesmo sem pressão de ter que desempenhar, meu cérebro puxou essas memórias e disse “melhor não arriscar”.

E sabe o que mais me incomodou? Não foi o segundo lugar, o resultado não importava. Foi saber que EU tinha mais, mas EU não confiei em mim mesmo. 

 

A Verdade

Pensa no Peter Sagan. O cara da thumbnail deste post não é só um dos maiores sprinters da história por causa de watts. É porque ele tinha uma confiança absurda no que podia fazer. Descia de uma forma absurda. Sprint de lugares impossíveis. Atacava quando ninguém achava que dava. Sagan não era necessariamente o mais forte sempre, mas ele ACREDITAVA que conseguia, e essa crença se transformava em vitórias que ninguém esperava. Enquanto outros hesitavam, ele ia. Inclusive indico o livro dele, “My World”.

Quanto menos você confia, menos você arrisca. Quanto menos você arrisca, menos experiências positivas você acumula. Quanto menos experiências positivas, menos você confia. É um ciclo que se autoalimenta para baixo. Eu vejo isso em todo assessorado que chega hesitante. 

Mas o ciclo também funciona para cima. Pequenas vitórias geram confiança. Confiança te faz arriscar mais. Arriscar mais gera mais vitórias. Sagan construiu aquela confiança inabalável em cima de milhares de pequenas decisões onde ele arriscou e deu certo. Cada sprint que ele venceu alimentou a próxima tacada audaciosa. É exatamente o que construo na VixCC com cada assessorado.

 

O Que Fica Disso

Você pode ter o melhor plano de treino do mundo. Pode ter números lindos no TrainingPeaks. Mas se não acredita que consegue, vai hesitar no momento crucial.
 

Voltei para os treinos estruturados. Voltei a acumular pequenas vitórias diárias. Cada intervalo completado reconstrói minha autoeficácia um degrau por vez. Não estou aprendendo isso. Estou vivendo o que já sei que funciona.

E isso fortalece ainda mais meu trabalho na VixCC. Porque agora quando passo um treino para um assessorado, quando monto aquela progressão cuidadosa de estímulos que vão reconstruindo a confiança dele, quando fço treinos técnicos de descida, subida, contra vento, cadência… eu não faço só porque sei que funciona cientificamente. Faço porque acabei de viver, de novo, o quanto isso é real.

Então a pergunta que fica é: você está só acumulando energia potencial, ou está transformando isso em movimento? Porque ter 300W guardados e usar só 250W por medo é desperdício de quem você realmente é.

Se você se identificou com isso, se já sentiu que tem mais dentro de você mas algo te trava, é exatamente por isso que na VixCC a gente não trabalha só watts e periodização. A gente trabalha o atleta completo. Porque potencial sem confiança é energia que nunca vira resultado.

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