Estou aqui no escritório agora, rodeado de planilhas, gráficos de potência e aquele cafezinho que já esfriou há uma hora, trabalhando a periodização de 2026 dos meus assessorados. É engraçado como essa época do ano me deixa empolgado. Enquanto muitos ciclistas veem novembro como o fim da temporada, eu vejo como o início da próxima. E sabe por quê? Porque é exatamente aqui que começa a construção do alicerce que vai definir se 2026 será um ano de conquistas épicas ou de frustrações e lesões.
Nos últimos dias, tenho recebido uma avalanche de mensagens no WhatsApp. Tem assessorado animado porque já começou a base, outros completamente confuso sobre o que fazer agora que a temporada acabou, e tem aquele grupo que ainda acha que base é só pedalar devagar sem rumo nenhum. Essa confusão não é rara… é mais comum do que você imagina. Por isso resolvi escrever este artigo, para esclarecer uma vez por todas esse conceito que parece simples mas muda tudo na sua carreira.
Deixa eu te contar uma história real que ilustra perfeitamente por que a base importa tanto.
No ano passado, tive um assessorado que eu vou chamar de “Roberto” aqui. O cara era obcecado em manter a forma o ano inteiro. Tipo aquele obsessivo que acha que se parar um dia vai perder todos os ganhos, sabe? Ele simplesmente não conseguia aceitar que precisava diminuir a intensidade e focar em volume aeróbico durante a base. Continuava fazendo alta intensidade, ignorando minhas recomendações, achando que sabia melhor.
Resultado? Chegou em junho com uma fadiga acumulada, os treinos não rendiam mais. O corpo dele começou a falhar: gripado semana sim semana não. Perdeu as duas principais provas que tinha planejado para o primeiro semestre.
Agora tem a história do outro lado. Uma assessorada que eu chamo de “Juliana” aqui. Ela abraçou completamente a filosofia da base no primeiro ano em que trabalhou comigo. Dedicou meses pedalando em zonas baixas, trabalhando força na academia duas vezes por semana, cuidando obsessivamente da técnica, fazendo intervalos específicos quando era o momento certo.
Quando chegou a hora de aumentar a intensidade, o corpo dela respondeu de uma forma que impressionou até a mim. Bateu todos os recordes pessoais dela. Terminou no pódio nas duas principais competições que tinha como objetivo. E o melhor? Chegou lá forte, sem lesão, sem doença, com a confiança em alta.
A diferença entre Roberto e Juliana? Paciência e confiança genuína no processo.
Quando falo sobre base para novos assessorados, a primeira reação é sempre a mesma: desapontamento. Ninguém quer ouvir que vai passar meses “pedalando devagar”(apesar da base não ser isso haha). Quer saber a verdade? Essa sensação é exatamente o sinal de que eles ainda não entenderam o que base realmente é.
Base é um universo de adaptações fisiológicas que a maioria dos ciclistas subestima completamente. Durante esse período, você está trabalhando cinco valências físicas essenciais de forma simultânea: capacidade aeróbica (construção do motor cardiovascular), resistência muscular (capacidade de sustentar esforço prolongado), força estrutural (sustentação da pedalada), capacidade técnica (economia de movimento, cadência, aerodinâmica), e coordenação neuromuscular (sprints técnicos, transições de ritmo).
Importante esclarecer: eu utilizo periodização por blocos, então trabalho com vários períodos de base ao longo do ano. Esse que estou me referindo agora é a base principal, aquela que define o teto máximo do seu desempenho anual.
O que acontece microscopicamente durante a Zona 2? Você está estimulando biogênese mitocondrial, criação de novas mitocôndrias nas células musculares. Pesquisas mostram que treinos de baixa intensidade em alto volume aumentam especificamente a densidade mitocondrial (mais quantidade), enquanto treinos intervalados de alta intensidade melhoram a eficiência mitocondrial (melhor qualidade das existentes). Ambos são necessários, mas a sequência importa.
Simultaneamente, você está aumentando a capilarização muscular, criando mais “estradas” para entrega de oxigênio. Está elevando a produção de mioglobina, proteína que transporta oxigênio para as mitocôndrias. Está ensinando o corpo a oxidar gordura de forma mais eficiente, preservando glicogênio para os momentos críticos.
E tem mais: aerodinâmica. Estudos mostram que melhorar a posição aerodinâmica pode reduzir o arrasto em 15-25%, economizando 20-30W para manter a mesma velocidade. Durante a base, com a mente calma e o corpo descansado, você tem tempo para explorar posições, testar ajustes, filmar-se no rolo. Esses detalhes técnicos fazem diferença gigantesca depois.
Cientistas como Iñigo San Millán (antigo treinador do Pogacar) têm dedicado a carreira a provar que atletas com uma base aeróbica sólida têm capacidade de trabalho muito maior, recuperação mais rápida, e resistem melhor ao acúmulo de fadiga. Não é opinião minha. É ciência.
Neste momento, estou mergulhado na periodização dos meus assessorados para 2026. Cada planejamento é um quebra-cabeça diferente porque cada pessoa tem objetivos diferentes, disponibilidade diferente, histórico de treinamento completamente distinto. Mas todos eles têm algo em comum: vão começar pela base. Sem exceção.
Tem gente que vai fazer apenas 12 semanas de base porque a primeira prova importante é em março. Outros vão fazer 24 semanas porque o objetivo principal é lá para julho ou agosto. E tem um grupo que vai fazer os clássicos 8 semanas pois vou priorizar uma periodização por blocos ao longo do ano. O que importa é que cada um vai construir esse alicerce de forma adequada ao seu calendário pessoal.
Uma coisa curiosa que tenho observado ao longo dos anos: os atletas que mais resistem à base no primeiro ano são exatamente os que mais defendem ela nos anos seguintes. Sério mesmo. Depois que sentem na pele a diferença de chegar nas competições/desafios com uma base bem feita, em comparação com anos anteriores onde pularam etapas, nunca mais querem voltar atrás. É aquela conversão real, sabe?
Aqui tem um detalhe importante que muda tudo pra quem compete bastante/participa de desafios e quer estar bem. Não é o modelo clássico de um big base de 6 meses seguido de build seguido de peak. Não funciona assim
Para os meus assessorados amadores que participam de muitas competições e desafios ao longo do ano, tipo você que quer estar rápido em novembro, dezembro, janeiro e ainda competir bem em maio, eu estruturo a periodização em blocos menores e estratégicos.
O que acontece? Tem sim uma base geral e sólida feita antes de tudo, que é onde a gente está agora em novembro.
Mas ao longo do ano, conforme você entra na temporada de competições, a gente incrementa pequenas fases de base entre os blocos de build e competição. Parece confuso? Deixa eu explicar na prática.
Você faz sua base geral de Novembro a Fevereiro. Aí em Março começa a competir. Mas entre Abril e Maio, quando tem um período com menos competições, a gente faz um pequeno bloco de base específica.
Isso permite que você mantenha e melhore capacidades técnicas durante a temporada sem sacrificar performance. A periodização fica inteligente e flexível, não robótica.
Se você ainda não preencheu seu planejamento para 2026, deixa eu ser bem honesto contigo: é exatamente a hora de fazer isso. Não é “quando terminar aquele outro projeto” ou “semana que vem”. É agora.
Porque cada semana que passa é uma semana que você deixa de estar construindo. Cada semana de base bem executada agora é uma semana de vantagem que você vai ter sobre quem começar em janeiro. E outra, para os amadores, o ano nunca é perfeito, tem compromisso com familia, férias, parte social… por isso fazer uma boa base é importante.
Base não é perda de tempo. Base não é falta de treino sério. Base é exatamente o oposto: é o treino mais importante do ano, aquele que vai definir o teto do seu desempenho. Você não consegue ser mais rápido do que sua base permite. É fisicamente impossível.
Então vamos começar certo? Bora?