O FTP não diz quem você é como ciclista

Você calculou seu FTP semana passada. Pegou o resultado dos vinte minutos, tirou cinco por cento, anotou o número e passou a semana inteira repetindo ele pra qualquer pessoa que perguntasse como estava o treino. Esse número virou sua identidade no pelotão. Só que esse cálculo, do jeito que a maioria faz, já nasce torto, e o problema vai muito além da conta.

Vou te mostrar de onde vem essa métrica, por que ela foi criada, e por que ela nunca deveria ter virado a única resposta pra pergunta “que tipo de ciclista eu sou”.

De onde vem o FTP e por que ele existe

FTP significa Functional Threshold Power, a potência que você sustenta durante uma hora inteira em estado quase estável, no limite entre o metabolismo aeróbico dominando e o lactato começando a acumular mais rápido do que seu corpo consegue reciclar. O conceito nasceu do trabalho de fisiologistas do esporte estudando o limiar de lactato em laboratório, e ganhou o formato que conhecemos hoje através de treinadores como Andrew Coggan e Hunter Allen, que popularizaram o uso do FTP como base para estruturar zonas de treino a partir de dados de potência, algo que até então só existia em contexto de laboratório com ciclistas de elite.

 

A genialidade do FTP foi trazer pra rua um conceito que só existia debaixo de máscara de gases e eletrodos. Com um teste de campo relativamente simples, qualquer ciclista com um medidor de potência passou a conseguir estruturar zonas de treino coerentes com sua própria fisiologia, em vez de usar tabelas genéricas de frequência cardíaca. Pra isso, o FTP é excelente, e continua sendo a espinha dorsal de qualquer periodização séria, inclusive da forma como estruturamos os planos aqui na VixCC.

O problema começa quando o FTP para de ser ferramenta e vira sua identidade como ciclista.

O erro que quase todo ciclista amador comete

Teste de FTP de verdade dura uma hora. Isso exige controle mental, ritmo preciso e uma dose de sofrimento que poucos têm paciência de aguentar num treino solo, então o mercado criou um atalho: pedalar vinte minutos no máximo esforço e multiplicar o resultado por noventa e cinco por cento. A lógica por trás é razoável, existe uma correlação estatística entre a potência de vinte minutos e a de uma hora em atletas bem treinados. O problema é que essa correlação varia muito de pessoa pra pessoa, principalmente em quem ainda não tem uma base aeróbica consistente ou uma boa capacidade de resistir à fadiga em provas mais longas.

Resultado prático: o ciclista amador pega um número de vinte minutos, aplica a fórmula, e sai por aí carregando um FTP que pode estar inflado ou subestimado dependendo do seu perfil fisiológico específico. E pior, ele passa a acreditar que aquele número único resume tudo que ele é como atleta. Vira régua de comparação no grupo, vira legenda de Strava, vira motivo de orgulho ou de frustração, quando na verdade é só um ponto isolado numa curva muito mais rica.

A curva de potência conta a história inteira

Se o FTP mostra o que você sustenta por uma hora, ele não fala nada sobre sua explosão de cinco segundos num sprint pra vencer o sinal, sobre sua capacidade anaeróbica de trinta segundos pra fechar um buraco que abriu na subida, sobre sua potência de dois minutos pra responder a um ataque, ou sobre sua resistência de dez minutos pra segurar um pelotão forte numa subida longa. Cada uma dessas capacidades depende de sistemas energéticos diferentes, treina de forma diferente, e conta uma parte diferente da sua história como ciclista.

Dois ciclistas podem ter exatamente o mesmo FTP de 285 watts e serem atletas completamente distintos. Um deles construiu esse número em cima de uma base aeróbica sólida mas sem nenhuma explosão, o outro tem uma capacidade anaeróbica brutal que carrega o resto da curva pra cima. No grupo, na prova, na vida real, esses dois ciclistas vivem experiências completamente diferentes pedalando ao lado um do outro, mesmo com o mesmo número no papel.

Repara na diferença. O ponto de uma hora é idêntico pros dois, 285 watts, o mesmo FTP. Mas olha o que acontece em cinco segundos, em trinta segundos, em dois minutos. É ali que mora a diferença entre sobrar na resposta a um ataque e segurar o pelotão sem sofrimento, e quebrar assim que o ritmo muda de repente.

A vez que aprendi isso na prática, aos dezessete anos

Eu tinha dezessete anos quando fiz um teste de potência completo pela primeira vez, sob orientação de um treinador chamado Dantas, que já tinha passado por equipes na Itália e entendia de fisiologia de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Cheguei achando que sabia exatamente quem eu era como ciclista, porque tinha calculado meu FTP e me sentia bem confortável com aquele número.

Dantas me colocou pra rodar uma bateria inteira, potência máxima de cinco segundos, trinta segundos, um minuto, dois minutos, cinco minutos, dez minutos, além da hora inteira. Quando ele sentou comigo pra olhar os resultados, o FTP nem foi a primeira coisa que ele apontou. Ele foi direto nos cinco minutos e nos dois minutos, e falou algo que eu carrego até hoje: “seu limiar tá bom, mas é aqui que mora seu potencial real, e é aqui que a gente ainda não trabalhou nada”.

Aquilo me maturou de um jeito que nenhum número isolado tinha conseguido antes. Entendi naquele dia que eu não era um FTP, eu era uma curva inteira, com pontos fortes e pontos completamente intocados. A partir dali, toda a forma como eu treinava e como eu passei a treinar meus atletas mudou. Parei de perseguir um único número e passei a perseguir o formato da curva como um todo.

O que fazer com isso a partir de amanhã

Continue usando o FTP pra estruturar suas zonas, ele segue sendo a base mais confiável pra isso. Mas pare de resumir sua identidade como ciclista a esse único ponto. Comece a testar e acompanhar outros pontos da sua curva: cinco segundos, trinta segundos, dois minutos, cinco minutos, dez minutos. Descubra onde você é forte e onde você é fraco de verdade, porque é ali que mora o trabalho que realmente vai te transformar num ciclista mais completo, mais respeitado no grupo e mais preparado pra qualquer tipo de prova.

Quem é a VixCC e o Igor

Sou Igor, fundador da VixCC, campeão do ranking Brasileiro Junior de Ciclismo em 2015 e treinador de mais de 700 ciclistas nos últimos dez anos. A metodologia que uso une a experiência prática que vivi dentro do pelotão profissional com uma base acadêmica sólida em Educação Física, sempre com periodização científica flexível, adaptada à idade, à rotina e ao tempo real de cada aluno. Aqui, o FTP é ferramenta de trabalho, nunca resumo de identidade.

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