No ciclismo existe um paradoxo que fascina: é um esporte que machuca e cura ao mesmo tempo, que inflige dor mas entrega prazer, que leva o corpo ao colapso enquanto fortalece a alma. Eddy Merckx, o maior de todos (ou Pogacar?), dizia que a corrida é vencida pelo ciclista que consegue sofrer mais. A frase nunca foi apenas sobre ganhar uma prova, mas sobre revelar que, no ciclismo, a vitória pertence não ao mais forte fisicamente, mas ao mais resiliente mentalmente.
O sofrimento na bicicleta vai muito além da dor física. Quando sofremos nos pedais, trazemos à tona tudo o que já fomos e sentimos. É por isso que tantas vezes, em subidas intermináveis ou treinos em que parece que não há mais energia, o ciclista encontra revelações sobre si mesmo (por isso gosto do Dia de Acelerar na metodologia Vix). A dor se torna um espelho. Ela mostra fraquezas, mas também abre a porta para forças que só existem porque fomos obrigados a procurá-las.
A ciência ajuda a explicar essa experiência. Quando enfrentamos uma subida brutal, daquelas que fazem questionar escolhas de vida, o cérebro libera uma cascata neuroquímica: endorfinas, dopamina, serotonina, anandamida. Essa mistura transforma desconforto em euforia. Estudos mostram que exercícios longos ativam o sistema endocanabinoide natural, o mesmo afetado pela maconha, o que explica porque muitos descrevem pedais épicos como experiências quase espirituais. Não é exagero: é neuroquímica pura hahaha
O limiar de lactato talvez seja a tradução mais científica desse encontro entre dor e performance. Abaixo dele, é possível pedalar conversando. Acima, cada segundo é um diálogo íntimo com os próprios limites. Treinar nessa zona é, ao mesmo tempo, fisiologia e psicologia: um aprendizado constante sobre conviver com a queimação, respirar fundo e aceitar o desconforto como parte do crescimento.
Essa relação com a dor é também cultural. Desde o ciclismo europeu das décadas de 40 e 50, o sofrimento foi romantizado. Fausto Coppi dizia que o ciclismo é sofrimento. Merckx repetia que quem não lida com a dor não vence nada. São declarações que carregam filosofia: o ciclismo é, essencialmente, um diálogo contínuo entre ser humano e limite.
Na minha opinião, o público que está assistindo o tour de France em casa ou lá nas montanhas não ia apenas para ver vitórias, mas para testemunhar a resistência diante da agonia. Sofrer é espetáculo.
E sofrer é também comunicação. O rosto contraído de um ciclista em plena escalada é mais do que dor muscular. Foi assim com Tyler Hamilton vencendo com a clavícula quebrada (vi pelo Dvd do meu pai), com Geraint Thomas terminando o Tour com a pélvis fraturada. Imagens de dor viram mitos, porque o sofrimento visível é traduzido em heroísmo eterno.
Mas a arte de sofrer não significa ignorar sinais ou buscar dor por si só. O ciclista experiente aprende a distinguir entre dor que fortalece e dor que destrói. Para isso, recorre a estratégias mentais que transformam a percepção: visualização, segmentação em pequenas metas, dissociação quando é preciso fugir mentalmente, associação quando é hora de abraçar o desconforto. Aprende também que biomecânica correta, recuperação e treinar da maneira certa não eliminam o sofrimento, apenas garantem que ele seja produtivo, e não lesivo.
No ciclismo, o máximo de dor pode coexistir com o máximo de prazer. Esse é o estado de fluxo (alguns devem ter ouvido a palvra “Flow”).
Dominar a arte de sofrer é aceitar que a dor nunca desaparece, mas pode ser moldada em arte, crescimento e transcendência (aqui exagerei um pouco). Cada subida íngreme, cada contra-relógio no limite, cada treino em que parecia impossível, se transforma em metáfora: a coragem de abraçar o desconforto como caminho para se tornar mais forte. Porque pedalar é sofrer, e sofrer no ciclismo é descobrir que, por trás de cada dor, existe uma versão mais resistente, mais corajosa e mais viva de nós mesmos.
Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se…
Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo…