Viagem Italia – Roteiro, custos e experiências Se você é ciclista, provavelmente já se imaginou subindo o Stelvio, encarando o Mortirolo ou pedalando pelas Dolomitas. Eu cresci assim, vendo o Giro d’Italia na TV e sonhando com aquelas estradas impossíveis. Em 2025, transformei esse sonho em realidade: foram 14 dias pedalando pela Itália, Suíça e Áustria, acompanhando o Giro de perto e vivendo o que há de mais épico no ciclismo. E é exatamente isso que quero compartilhar com você: um guia completo para organizar sua viagem, com dicas práticas, roteiro de pedais, custos reais e algumas curiosidades que só quem foi pode contar. Passagens e transporte da bike Esse é o primeiro desafio. Companhias como a Air Europa parecem econômicas, até você descobrir que cobram cerca de 200 € por trecho só de bike despachada, sem contar exigência de compra com muita antecedência. Tive um problema no retorno ao Brasil e tive que pagar uma passagem nova por negligência deles. Ao meu ver, não valeu a pena. Uma alternativa com melhor custo-benefício (em agosto de 2025) é a Latam, especialmente comprando com antecedência e incluindo a bike no bilhete. Além do atendimento ser em português. Esse é o primeiro ponto crítico. Não caia na tentação de escolher companhia apenas pelo preço. Minha dica prática: compre com antecedência, leia a política de transporte de bicicletas da companhia e ligue confirmando. Nada pior do que chegar no aeroporto e descobrir que precisa pagar mais caro para embarcar. Para embalar a bike no avião, usei um mala-bike flexível, desmontando as rodas, cambio e direção. No começo fiquei apreensível de não dar certo e danificar minha bike. No final, foi uma decisão muito acertada. Minha estratégia foi simples: aluguei um SUV espaçoso, desmontamos só a roda dianteira e encaixamos as bikes dentro. Passamos 14 dias rodando assim, sem sufoco, e só voltamos a montar tudo em Milão, para despachar no aeroporto. Curiosidade importante: muita gente fala que precisa da PID (Permissão Internacional para Dirigir). Eu tirei a minha, mas em nenhum momento pediram. Usei apenas a CNH brasileira na Itália, Suíça e Áustria sem problemas. Hospedagem e base da viagem O roteiro que montei foi dividido em “bases” estratégicas: – Bormio (4 noites): ideal para subir Stelvio, Gavia e Mortirolo. – Innsbruck (2 noites): para explorar Kühtai e pedalar nos Alpes austríacos. – Caprile, Vêneto (4 noites): perfeito para pedalar nas Dolomitas (Giau, Falzarego, Fedaia, Pordoi, Gardena, Sella). – Lago de Garda, Sirmione (3 noites): pedal cinematográfico em torno do lago. – Milão (1 noite): apenas para organizar o retorno. Dica prática: reserve hospedagens que permitam guardar a bike com segurança. Em Bormio, por exemplo, fiquei em hotel com local próprio para ciclistas, o que dá tranquilidade. O roteiro dos pedais Foram 38 horas de pedal e 20 mil metros de ascensão em 14 dias. Stelvio 🇮🇹 + Umbrail Pass 🇨🇭(link) Torri di Fraele 🇮🇹 (link) Passo Gavia 🇮🇹 + Mortirolo 🇮🇹 (link) Kühtai 🇦🇹 (link) Passo Giau + Falzarego 🇮🇹 (link) Passo Duran 🇮🇹 (link) Passo Fedaia + Pordoi + Gardena + Sella 🇮🇹 (link) Lago de Garda 🇮🇹 (link) Stelvio + Umbrail PassO Stelvio é surreal. São 48 curvas numeradas, uma depois da outra, subindo até quase 2.800 metros de altitude. Parece que nunca acaba, mas cada curva te dá um motivo pra continuar. Quando você olha pra baixo e vê a estrada serpenteando, entende por que essa montanha é considerada um templo do ciclismo. Foi aqui que Fausto Coppi garantiu seu quinto Giro, e pedalar ali dá a sensação de estar dentro da história. Passo Gavia + MortiroloO Gavia tem uma atmosfera única. É frio, silencioso, com neve ainda acumulada na beira da estrada mesmo no verão. São 17 km que vão mudando de paisagem, de floresta até um ambiente quase deserto no topo. Já o Mortirolo não tem nada de bonito, é só brutalidade. São 12 km de sofrimento puro, rampas de 18% que não te dão respiro. Lance Armstrong já falou que foi a subida mais difícil que fez na vida, e eu entendi o motivo. Ali não tem glamour, é sobrevivência. As DolomitasAs Dolomitas são de cair o queixo. O Passo Giau, com mais de 2.200 metros, é duríssimo. Longo, inclinado, daqueles que testam mais a cabeça do que a perna. O Falzarego é cheio de curvas e termina com dois túneis — o último totalmente escuro, uma sensação estranha de estar pedalando no vazio. Mas o dia mais pesado foi quando encaixamos Fedaia, Pordoi, Gardena e Sella no mesmo pedal. Foram 83 km com 4.000 metros de subida. Não é só físico, é mental. Você termina esgotado e, ao mesmo tempo, agradecendo por estar ali. Lago de GardaDepois de tanta porrada nas pernas, o Lago de Garda foi como um presente. Estradas à beira da água, paredões de pedra, vilarejos medievais… é o pedal que você desacelera só pra poder curtir. Paramos pra tomar café olhando o lago, e foi impossível não pensar: “Isso aqui é o ciclismo no seu melhor formato”. Custos da viagem Resumo por pessoa: Passagem aérea: R$ 6440 Carro (14 dias): R$ 2250 Hotéis/Airbnb: R$ 3250 Alimentação: ~800 euros (R$ 4800) Gasolina/pedágios: 100 euros (R$ 600) Extras (documentos, cafés, lembranças): R$ 500 Total aproximado: R$ 22.000 Pode parecer alto, mas são R$ 1.466 por dia vivendo paisagens de documentário, conquistando montanhas históricas e criando memórias eternas. Cultura e curiosidades Cafeterias: parar para tomar um cappucino é tradicional e obrigatório! Pizza: comi 14 pizzas em 14 dias. E afirmo: a pizza brasileira ainda é melhor. A pizza italiana é mais fina e leve, feita para consumo individual, mas falta aquele capricho brasileiro. A massa deles fermenta mais tempo, fica mais digestiva, mas nossa variedade de sabores e qualidade dos ingredientes ganham fácil. O Giro d’Italia: assistir a corrida de perto foi emocionante. Ver o pelotão passando nas mesmas montanhas que pedalei me fez lembrar do Igor criança que sonhava estar ali.