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A dominância que não precisa de rival: o que Indurain ensina sobre Pogačar

Mentalidade

A dominância que não precisa de rival: o que Indurain ensina sobre Pogacar veja nosso youtube Faltando a etapa de montanha de sábado e o passeio final até Paris no domingo, Tadej Pogacar está a um passo do quinto título do Tour de France. No dia 24 de julho, ele subiu o Alpe d’Huez em 35 minutos e 27 segundos e quebrou por mais de um minuto o recorde que Marco Pantani segurava desde 1997. Se confirmar, ele entra num grupo de cinco nomes na história da prova, ao lado de Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain. Edward Pickering escreveu um livro inteiro sobre esse grupo, o The Yellow Jersey Club, e a ideia central dele serve muito além da história do ciclismo. Pickering mostra que ganhar cinco Tours nunca quis dizer a mesma coisa. Cada um desses caras construiu um jeito próprio de ser imbatível. E entender qual desses jeitos o Pogačar está repetindo diz mais sobre ele do que qualquer número de watts. O caçador que precisa de um adversário na frente No capítulo sobre Bernard Hinault, Pickering descreve um corredor que só ligava a chave quando tinha um rival na frente para vencer. Segundo Cyrille Guimard, que foi diretor esportivo dele e aparece citado no livro, Hinault engrenava de verdade quando tinha um alvo concreto para bater, fosse um adversário no pelotão ou um jornalista que tinha falado mal dele. Isso explica por que Hinault escolhia a dedo onde ia dar as caras. Ele tratava as grandes provas como compromisso marcado, coisa pra guardar energia, e levava a pré-temporada numa boa, treinando bem mais leve do que os rivais. O resultado foi uma carreira de vitórias em cima da hora certa, cinco Tours entre 1978 e 1985, montada em cima de picos bem calculados e concentrados nos momentos que ele escolhia. O gigante calado que ganhava a corrida antes dela começar O capítulo do Miguel Indurain mostra um perfil bem diferente. Pickering descreve um cara fechado, quieto, que vencia em silêncio e tratava treino e corrida com a mesma calma de quem vai cuidar da roça do pai lá em Navarra. A dominância do Indurain vinha de um contrarrelógio decisivo por Tour, tão fora da curva em relação aos outros que a corrida já ficava praticamente resolvida ali. No contrarrelógio, em 1992, ele tirou minutos inteiros dos favoritos. O livro conta o estrago psicológico que aquilo deixou no pelotão, apelidado na época de complexo de Indurain, um bloqueio mental que perseguiu adversários como Gianni Bugno pelo resto da carreira. Bastava ele aparecer na largada pra corrida já pesar contra os outros. Onde o Pogačar entra nessa história Pogacar corre atrás de vitória em quase tudo que aparece no calendário. Antes deste Tour, ele já tinha corrido Strade Bianche, Volta a Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e o Tour de Romandia. Essa fome de vencer em qualquer terreno, no livro do Pickering, lembra o Eddy Merckx. O efeito que ele causa nos rivais lembra o Indurain. Antes mesmo da primeira semana de descanso deste Tour, a imprensa já falava de um clima de desânimo no pelotão, todo mundo meio conformado.  Essa mistura deixa o caso dele único no grupo. Ele junta a fome do Merckx de vencer em qualquer lugar com o mesmo colapso de confiança que o Indurain provocava nos adversários em silêncio. Cada modelo do livro explica metade do fenômeno, e o Pogacar reúne as duas metades no mesmo corredor. Por que isso importa pra quem não corre o Tour Essa diferença entre o modelo Hinault e o modelo Indurain descreve dois jeitos de manter consistência competitiva, e um deles pesa muito mais na cabeça do que o outro. Precisar de um rival pra se motivar, igual o Hinault, funciona, e ainda assim cobra um preço em desgaste toda corrida, porque a motivação fica pendurada num gatilho de fora que oscila com o contexto. A tranquilidade do Indurain, construída de dentro pra fora, sai bem mais barata de sustentar ao longo de uma temporada inteira. Foi isso que segurou o domínio dele por tantos anos com folga. Isso cai direto no colo do aluno que rende melhor quando tem alguém específico pra vencer no grupão, ou uma prova específica pra provar alguma coisa. Esse tipo de motivação funciona bem no dia certo, e sustenta a temporada inteira com dificuldade, alternando pico de ansiedade com fundo de poço de desânimo. Construir uma confiança que se sustenta sozinha dá mais trabalho e demora mais, e é ela que segura a consistência no longo prazo. Quem está por trás desse olhar Na VixCC, essa leitura de temporada, calendário e picos de forma é o que orienta a prescrição de cada aluno, seja ele um ciclista que compete em provas locais ao longo do ano ou alguém que guarda toda a energia para um único objetivo em julho. Entender como distribuir carga entre bases largas e picos específicos é o que separa quem chega gasto da temporada de quem chega, como Pogacar neste Tour, parecendo estar apenas começando. WhatsApp Threads X Entre na nossa Newsletter Veja mais A dominância que não precisa de rival: o que Indurain ensina sobre Pogačar FTP superestimado: o número que todo ciclista amador calcula errado Confiança importa no ciclismo? Por que a base define o jogo Ciclismo x Condicionamento Viagem Italia – Roteiro, custos e experiências Instagram Tiktok Youtube @VIXCC 2026 – Todos os direitos reservados. Precisa de ajuda?

julho 24, 2026 / Comentários desativados em A dominância que não precisa de rival: o que Indurain ensina sobre Pogačar
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Confiança importa no ciclismo?

Mentalidade

Confiança importa no ciclismo? veja nosso youtube   Existe um conceito na física chamado energia potencial. É a energia armazenada, pronta para ser usada, mas que ainda não virou movimento. Você pode ter toneladas de energia potencial e zero energia cinética. Traduzindo: você pode ter tudo dentro de você e não transformar nada disso em resultado.  Participei de um rachão. Aquele clima gostoso de competição entre amigos, todo mundo puxando, zoando, se divertindo e claro, competindo. Mas eu estou há alguns meses sem treinar direito, e isso pesou. Não no corpo, curiosamente. Pesou na cabeça. Foram 96km com  40km/h de média, sem muita altimetria. Meu corpo mandava sinais de que estava pronto para atacar ou selecionar o grupo. A respiração controlada, as pernas respondendo, o ritmo confortável. Mas toda vez que pensava em atacar, em puxar o grupo, em realmente me soltar, algo travava. Hesitei. Fiquei no vácuo. Esperei o sprint. Aí vem a parte interessante. Faltando 700 metros, um cara ataca. Naquele momento, eu sabia exatamente o que fazer. Iniciar meu sprint ali, colar na roda dele, usar o vácuo e guardar energia para explodir nos últimos 200 metros. Eu SABIA que tinha condicionamento para isso. Meu corpo estava pedindo para ir. Mas a mente disse não. Esperei os outros adversários puxarem. Só iniciei meu sprint nos últimos 200 metros. Não deu tempo de chegar no cara que tinha atacado antes. Segundo lugar. E aí veio aquela reflexão que eu já conheço, mas que viver novamente me fez ver com outros olhos: eu não perdi por falta de forma física. Perdi por falta de confiança. A mesma coisa que vejo acontecer com dezenas de assessorados, acabou acontecendo comigo. Energia potencial que não virou cinética. E aqui vai um ponto que muita gente não conecta: confiança no ciclismo não se trata apenas de correr mais rápido ou atacar no momento certo. Se trata de descer aquela serra técnica com mais segurança porque você confia nas suas habilidades de controlar a bike. Se trata de fazer aquela curva fechada sem frear demais porque você confia no seu equilíbrio. Se trata de pedalar em grupo apertado sem tensão porque você confia que sabe se posicionar. Confiança permeia cada aspecto do ciclismo. Quando ela está alta, você pedala solto, toma decisões rápidas, aproveita mais. Quando está baixa, você fica travado em tudo, não só na parte competitiva.   O Paradoxo Na VixCC, lido com isso diariamente. Atleta com números excelentes no TrainingPeaks que chega na prova e hesita. Cara que mantém 320W nos treinos mas na hora H só usa 280W porque não confia que aguenta mais. Eu SEI disso. Trabalho isso com cada assessorado. Mas viver aquilo me deu vontade de falar sobre! Pensa comigo. Quantas vezes você já deixou de atacar/puxar um pouco mais forte/se desafiar… porque “não tinha certeza”? Quantas vezes não arriscou aquela descida técnica mesmo sabendo que tecnicamente conseguia? O corpo estava pronto. A mente bloqueou. Tenho um assessorado que estava exatamente nisso. Números lindos nos treinos. Trabalhei isso com ele nos últimos meses. Não era falta de treino. Era falta de confiança para usar o que ele tinha. Mudamos a abordagem, incluímos simulações de prova, repetiçoes de trechos tecnicos, treino de sprint… Três meses depois, ele não só rendeu no nível dos treinos, como superou. E agora eu tinha virado meu próprio caso clínico. Meses sem treinar direito, sem acumular pequenas vitórias, sem testar meus limites de forma consistente. Minha confiança tinha caído, mesmo que meu condicionamento base ainda estivesse lá.   A ciência Albert Bandura descobriu há décadas: confiança é construída principalmente por experiências pessoais de sucesso. Cada vez que você completa algo difícil, sua confiança sobe. Cada vez que você falha ou simplesmente não testa, ela cai. Eu sabia disso. Ensino isso. Mas tinha negligenciado em mim mesmo. As últimas experiências que eu tinha acumulado eram de treinos mal feitos, de hesitações, de não empurrar. Então quando chegou a hora de decidir no rachão, mesmo sem pressão de ter que desempenhar, meu cérebro puxou essas memórias e disse “melhor não arriscar”. E sabe o que mais me incomodou? Não foi o segundo lugar, o resultado não importava. Foi saber que EU tinha mais, mas EU não confiei em mim mesmo.    A Verdade Pensa no Peter Sagan. O cara da thumbnail deste post não é só um dos maiores sprinters da história por causa de watts. É porque ele tinha uma confiança absurda no que podia fazer. Descia de uma forma absurda. Sprint de lugares impossíveis. Atacava quando ninguém achava que dava. Sagan não era necessariamente o mais forte sempre, mas ele ACREDITAVA que conseguia, e essa crença se transformava em vitórias que ninguém esperava. Enquanto outros hesitavam, ele ia. Inclusive indico o livro dele, “My World”. Quanto menos você confia, menos você arrisca. Quanto menos você arrisca, menos experiências positivas você acumula. Quanto menos experiências positivas, menos você confia. É um ciclo que se autoalimenta para baixo. Eu vejo isso em todo assessorado que chega hesitante.  Mas o ciclo também funciona para cima. Pequenas vitórias geram confiança. Confiança te faz arriscar mais. Arriscar mais gera mais vitórias. Sagan construiu aquela confiança inabalável em cima de milhares de pequenas decisões onde ele arriscou e deu certo. Cada sprint que ele venceu alimentou a próxima tacada audaciosa. É exatamente o que construo na VixCC com cada assessorado.   O Que Fica Disso Você pode ter o melhor plano de treino do mundo. Pode ter números lindos no TrainingPeaks. Mas se não acredita que consegue, vai hesitar no momento crucial.  Voltei para os treinos estruturados. Voltei a acumular pequenas vitórias diárias. Cada intervalo completado reconstrói minha autoeficácia um degrau por vez. Não estou aprendendo isso. Estou vivendo o que já sei que funciona. E isso fortalece ainda mais meu trabalho na VixCC. Porque agora quando passo um treino para um assessorado, quando monto aquela progressão cuidadosa de estímulos que vão reconstruindo a confiança dele, quando fço treinos técnicos de descida, subida, contra vento, cadência… eu não

dezembro 2, 2025 / Comentários desativados em Confiança importa no ciclismo?
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Não espere o desafio para se preparar

Mentalidade,  Treinamento

não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo não era provar nada para ninguém. Era estar fisicamente tão bem preparado que eu pudesse realmente aproveitar cada subida, cada café no vilarejo, cada curva do Stelvio sem estar destruído pelo esforço. Porque viver uma experiência assim não é só pedalar, é estar inteiro para curtir. E olha, subir gigantes como o Gavia, o Mortirolo e o Stelvio não é pouca coisa. São montanhas que marcaram a história do ciclismo, lugares onde ídolos se tornaram lendas. Eu cresci vendo essas estradas na TV durante o Giro e sempre me perguntava como seria pedalar ali. Estar naquele cenário foi muito mais do que cumprir um desafio, foi sentir na pele a energia do ciclismo em seu estado mais puro. E só consegui aproveitar cada detalhe porque cheguei preparado. Foram 38 horas de pedal em 14 dias, acumulando 20 mil metros de ascensão. Parece insano, mas não foi sofrimento. O corpo respondeu porque vinha de meses de treino estruturado e bem pensado, o que me permitiu não apenas “aguentar”, mas curtir. Esse ponto faz toda a diferença. Já vi assessorados que encararam o Caminho de Compostela com esse mesmo mindset. Não é só sobre completar os 600 km, é sobre chegar em Santiago inteiro, com energia para celebrar, sem sentir que foi uma guerra contra o corpo. A diferença entre aproveitar ou sofrer de ponta a ponta está no preparo físico feito antes. Um deles chegou para mim preocupado: “Igor, será que vou dar conta? Nunca fiz tantos dias consecutivos pedalando”. Montamos um planejamento focado em construir base sólida, trabalhar resistência em blocos longos, a força e ajustar nutrição para suportar dias seguidos de esforço. Resultado: ele não só completou o desafio, como terminou se sentindo mais forte no final do que no início. E o melhor, conseguiu aproveitar as paisagens, as paradas nas cidades históricas, os encontros pelo caminho. A ciência explica bem por que isso funciona. Preparar-se para desafios de vários dias exige não só preparo cardiovascular, mas também adaptação muscular e metabólica. Estudos mostram que treinos consistentes e direcionados aumentam a densidade mitocondrial, melhoram a utilização de gordura como combustível e ampliam a capacidade de tolerar o estresse oxidativo. Em linguagem prática: seu corpo aprende a “queimar mais limpo” e a se recuperar melhor entre um dia e outro. E tem o lado mental também. Quando você chega para um desafio já confiante de que o corpo vai aguentar, a mente relaxa. Você não passa o pedal inteiro preocupado se vai quebrar, mas aberto para curtir a estrada. Foi exatamente o que aconteceu comigo na Itália. Em vez de pedalar olhando só para o asfalto e rezando para acabar, pude levantar a cabeça, sentir o vento frio das montanhas, olhar para os vales glaciais e entender que aquele momento era único. Por isso, sempre falo: se o seu sonho é pedalar na Itália, fazer o Caminho de Compostela ou qualquer outro desafio épico, não espere o desafio para se preparar. Se prepare para chegar lá pronto, forte, e principalmente com energia para se divertir. Porque pedalar cansado qualquer um pedala. Agora, pedalar curtindo, sorrindo e colecionando memórias… isso é privilégio de quem chega preparado. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter 7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se… Veja este post Viagem Italia – Roteiro, custos e experiências Se você é ciclista, provavelmente já se imaginou subindo o Stelvio, encarando o Mortirolo ou… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.

setembro 3, 2025 / Comentários desativados em Não espere o desafio para se preparar
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A Arte de sofrer no ciclismo​

Mentalidade,  Treinamento

A Arte de sofrer no ciclismo No ciclismo existe um paradoxo que fascina: é um esporte que machuca e cura ao mesmo tempo, que inflige dor mas entrega prazer, que leva o corpo ao colapso enquanto fortalece a alma. Eddy Merckx, o maior de todos (ou Pogacar?), dizia que a corrida é vencida pelo ciclista que consegue sofrer mais. A frase nunca foi apenas sobre ganhar uma prova, mas sobre revelar que, no ciclismo, a vitória pertence não ao mais forte fisicamente, mas ao mais resiliente mentalmente. O sofrimento na bicicleta vai muito além da dor física. Quando sofremos nos pedais, trazemos à tona tudo o que já fomos e sentimos. É por isso que tantas vezes, em subidas intermináveis ou treinos em que parece que não há mais energia, o ciclista encontra revelações sobre si mesmo (por isso gosto do Dia de Acelerar na metodologia Vix). A dor se torna um espelho. Ela mostra fraquezas, mas também abre a porta para forças que só existem porque fomos obrigados a procurá-las. A ciência ajuda a explicar essa experiência. Quando enfrentamos uma subida brutal, daquelas que fazem questionar escolhas de vida, o cérebro libera uma cascata neuroquímica: endorfinas, dopamina, serotonina, anandamida. Essa mistura transforma desconforto em euforia. Estudos mostram que exercícios longos ativam o sistema endocanabinoide natural, o mesmo afetado pela maconha, o que explica porque muitos descrevem pedais épicos como experiências quase espirituais. Não é exagero: é neuroquímica pura hahaha Quando pesquisadores bloquearam totalmente a dor dos ciclistas com opioides, eles começaram forte mas quebraram cedo, incapazes de administrar o esforço. A dor, nesse contexto, não é inimiga, mas guia. É um sistema de navegação fisiológica. Por outro lado, quando a dor é apenas atenuada, como no caso de ciclistas que receberam acetaminofeno, a potência aumenta mesmo com a percepção de esforço igual. Isso mostra que o limite raramente é físico absoluto: ele nasce da mente e da forma como interpretamos o sofrimento. O limiar de lactato talvez seja a tradução mais científica desse encontro entre dor e performance. Abaixo dele, é possível pedalar conversando. Acima, cada segundo é um diálogo íntimo com os próprios limites. Treinar nessa zona é, ao mesmo tempo, fisiologia e psicologia: um aprendizado constante sobre conviver com a queimação, respirar fundo e aceitar o desconforto como parte do crescimento. Essa relação com a dor é também cultural. Desde o ciclismo europeu das décadas de 40 e 50, o sofrimento foi romantizado. Fausto Coppi dizia que o ciclismo é sofrimento. Merckx repetia que quem não lida com a dor não vence nada. São declarações que carregam filosofia: o ciclismo é, essencialmente, um diálogo contínuo entre ser humano e limite. Na minha opinião, o público que está assistindo o tour de France em casa ou lá nas montanhas não ia apenas para ver vitórias, mas para testemunhar a resistência diante da agonia. Sofrer é espetáculo. E sofrer é também comunicação. O rosto contraído de um ciclista em plena escalada é mais do que dor muscular. Foi assim com Tyler Hamilton vencendo com a clavícula quebrada (vi pelo Dvd do meu pai), com Geraint Thomas terminando o Tour com a pélvis fraturada. Imagens de dor viram mitos, porque o sofrimento visível é traduzido em heroísmo eterno. Mas a arte de sofrer não significa ignorar sinais ou buscar dor por si só. O ciclista experiente aprende a distinguir entre dor que fortalece e dor que destrói. Para isso, recorre a estratégias mentais que transformam a percepção: visualização, segmentação em pequenas metas, dissociação quando é preciso fugir mentalmente, associação quando é hora de abraçar o desconforto. Aprende também que biomecânica correta, recuperação e treinar da maneira certa não eliminam o sofrimento, apenas garantem que ele seja produtivo, e não lesivo. No ciclismo, o máximo de dor pode coexistir com o máximo de prazer. Esse é o estado de fluxo (alguns devem ter ouvido a palvra “Flow”).  Dominar a arte de sofrer é aceitar que a dor nunca desaparece, mas pode ser moldada em arte, crescimento e transcendência (aqui exagerei um pouco). Cada subida íngreme, cada contra-relógio no limite, cada treino em que parecia impossível, se transforma em metáfora: a coragem de abraçar o desconforto como caminho para se tornar mais forte. Porque pedalar é sofrer, e sofrer no ciclismo é descobrir que, por trás de cada dor, existe uma versão mais resistente, mais corajosa e mais viva de nós mesmos. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter 7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se… Veja este post Não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.

setembro 3, 2025 / Comentários desativados em A Arte de sofrer no ciclismo​
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O Ciclismo é o esporte mais difícil?

Mentalidade

Há muitos esportes que exigem muito tanto da parte psicológica quanto da parte física, e o ciclismo oferece argumentos para considera-lo como um dos esportes mais difíceis.

abril 5, 2019 / Comentários desativados em O Ciclismo é o esporte mais difícil?
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