Por que a base Define o Jogo veja nosso youtube Estou aqui no escritório agora, rodeado de planilhas, gráficos de potência e aquele cafezinho que já esfriou há uma hora, trabalhando a periodização de 2026 dos meus assessorados. É engraçado como essa época do ano me deixa empolgado. Enquanto muitos ciclistas veem novembro como o fim da temporada, eu vejo como o início da próxima. E sabe por quê? Porque é exatamente aqui que começa a construção do alicerce que vai definir se 2026 será um ano de conquistas épicas ou de frustrações e lesões. Nos últimos dias, tenho recebido uma avalanche de mensagens no WhatsApp. Tem assessorado animado porque já começou a base, outros completamente confuso sobre o que fazer agora que a temporada acabou, e tem aquele grupo que ainda acha que base é só pedalar devagar sem rumo nenhum. Essa confusão não é rara… é mais comum do que você imagina. Por isso resolvi escrever este artigo, para esclarecer uma vez por todas esse conceito que parece simples mas muda tudo na sua carreira. O Que Aprendi Observando Mais de 100 Assessorados Deixa eu te contar uma história real que ilustra perfeitamente por que a base importa tanto. No ano passado, tive um assessorado que eu vou chamar de “Roberto” aqui. O cara era obcecado em manter a forma o ano inteiro. Tipo aquele obsessivo que acha que se parar um dia vai perder todos os ganhos, sabe? Ele simplesmente não conseguia aceitar que precisava diminuir a intensidade e focar em volume aeróbico durante a base. Continuava fazendo alta intensidade, ignorando minhas recomendações, achando que sabia melhor. Resultado? Chegou em junho com uma fadiga acumulada, os treinos não rendiam mais. O corpo dele começou a falhar: gripado semana sim semana não. Perdeu as duas principais provas que tinha planejado para o primeiro semestre. Agora tem a história do outro lado. Uma assessorada que eu chamo de “Juliana” aqui. Ela abraçou completamente a filosofia da base no primeiro ano em que trabalhou comigo. Dedicou meses pedalando em zonas baixas, trabalhando força na academia duas vezes por semana, cuidando obsessivamente da técnica, fazendo intervalos específicos quando era o momento certo. Quando chegou a hora de aumentar a intensidade, o corpo dela respondeu de uma forma que impressionou até a mim. Bateu todos os recordes pessoais dela. Terminou no pódio nas duas principais competições que tinha como objetivo. E o melhor? Chegou lá forte, sem lesão, sem doença, com a confiança em alta. A diferença entre Roberto e Juliana? Paciência e confiança genuína no processo. Por Que Base Não é Só Pedalar Devagar Quando falo sobre base para novos assessorados, a primeira reação é sempre a mesma: desapontamento. Ninguém quer ouvir que vai passar meses “pedalando devagar”(apesar da base não ser isso haha). Quer saber a verdade? Essa sensação é exatamente o sinal de que eles ainda não entenderam o que base realmente é. Base é um universo de adaptações fisiológicas que a maioria dos ciclistas subestima completamente. Durante esse período, você está trabalhando cinco valências físicas essenciais de forma simultânea: capacidade aeróbica (construção do motor cardiovascular), resistência muscular (capacidade de sustentar esforço prolongado), força estrutural (sustentação da pedalada), capacidade técnica (economia de movimento, cadência, aerodinâmica), e coordenação neuromuscular (sprints técnicos, transições de ritmo). Importante esclarecer: eu utilizo periodização por blocos, então trabalho com vários períodos de base ao longo do ano. Esse que estou me referindo agora é a base principal, aquela que define o teto máximo do seu desempenho anual. O que acontece microscopicamente durante a Zona 2? Você está estimulando biogênese mitocondrial, criação de novas mitocôndrias nas células musculares. Pesquisas mostram que treinos de baixa intensidade em alto volume aumentam especificamente a densidade mitocondrial (mais quantidade), enquanto treinos intervalados de alta intensidade melhoram a eficiência mitocondrial (melhor qualidade das existentes). Ambos são necessários, mas a sequência importa. Simultaneamente, você está aumentando a capilarização muscular, criando mais “estradas” para entrega de oxigênio. Está elevando a produção de mioglobina, proteína que transporta oxigênio para as mitocôndrias. Está ensinando o corpo a oxidar gordura de forma mais eficiente, preservando glicogênio para os momentos críticos. E tem mais: aerodinâmica. Estudos mostram que melhorar a posição aerodinâmica pode reduzir o arrasto em 15-25%, economizando 20-30W para manter a mesma velocidade. Durante a base, com a mente calma e o corpo descansado, você tem tempo para explorar posições, testar ajustes, filmar-se no rolo. Esses detalhes técnicos fazem diferença gigantesca depois. Cientistas como Iñigo San Millán (antigo treinador do Pogacar) têm dedicado a carreira a provar que atletas com uma base aeróbica sólida têm capacidade de trabalho muito maior, recuperação mais rápida, e resistem melhor ao acúmulo de fadiga. Não é opinião minha. É ciência. Como Estou Organizando 2026 Neste momento, estou mergulhado na periodização dos meus assessorados para 2026. Cada planejamento é um quebra-cabeça diferente porque cada pessoa tem objetivos diferentes, disponibilidade diferente, histórico de treinamento completamente distinto. Mas todos eles têm algo em comum: vão começar pela base. Sem exceção. Tem gente que vai fazer apenas 12 semanas de base porque a primeira prova importante é em março. Outros vão fazer 24 semanas porque o objetivo principal é lá para julho ou agosto. E tem um grupo que vai fazer os clássicos 8 semanas pois vou priorizar uma periodização por blocos ao longo do ano. O que importa é que cada um vai construir esse alicerce de forma adequada ao seu calendário pessoal. Uma coisa curiosa que tenho observado ao longo dos anos: os atletas que mais resistem à base no primeiro ano são exatamente os que mais defendem ela nos anos seguintes. Sério mesmo. Depois que sentem na pele a diferença de chegar nas competições/desafios com uma base bem feita, em comparação com anos anteriores onde pularam etapas, nunca mais querem voltar atrás. É aquela conversão real, sabe? O Que Realmente Acontece na Base Aqui tem um detalhe importante que muda tudo pra quem compete bastante/participa de desafios e quer estar bem. Não é o modelo clássico de um big base de 6 meses seguido de build seguido de peak. Não funciona assim Para
Ciclismo x Condicionamento
ciclismo x condicionamento Sábado, 01h50. Termômetro marcava 6 °C quando comecei a escalada. A ideia era simples: sair do acampamento-base antes das duas e chegar ao Pico da Bandeira a tempo do nascer do sol. Na prática, foi um laboratório perfeito para ver quanto o ciclismo molda meu corpo. Primeira hora: passo firme, trilha escura, laterna iluminando. Altímetro cruza 2.000 m e eu ainda converso sem perder o ar. Lembro de como os longões de sabado me ensinaram a respirar — aquele ciclo longo, enchendo o “diafragma”, soltando devagar, e percebo que o coração segura 115 bpm. Para quem já viu 190 bpm no sprint, isso é cochilo hehe Segunda hora: terreno empina, vira escadaria. Quadríceps começa a reclamar, mas nada parecido com as micro-explosões de um intervalo de 30×30. Faço o que todo ciclista faz no inicio de uma subida: engato “cadência”, passos mais curtos, ritmo constante. Glicogênio agradece, e sigo sustentando conversa fiada com o guia. Terceira hora: 2.500 m. O ar rarefeito cobra de quem não treina cardio. Tomo gole de isotônico, mastigo uva-passa, igual controle de combustível que pratico na bike. 05h20. Cume. Sol rasga o horizonte em laranja elétrico. Frequência em 135 bpm, respiração controlada. Três horas e meia até o topo, e a cabeça só martela: “valeu cada km”. Porque é isso: o ciclismo construiu o motor que levou meu corpo montanha acima. Primeira meia hora de descida, tudo tranquilo, músculos ainda frescos, terreno conhecido. Mas aí a gravidade cobra o que não cobrou na subida. Tornozelo começa a reclamar nas pedras soltas, joelho protesta contra cada apoio irregular. É aí que você descobre: hiking não é só cardio, é propriocepção pura. Cada passo exige micro-ajustes que o pedal, por mais técnico que seja, não ensina. Na bike, você tem geometria, pneus, suspensão, tecnologia trabalhando a seu favor. Na trilha, é só você, a gravidade e o terreno conspiração contra seu equilíbrio. Meu tornozelo direito começou a mandar sinais de “chega” depois de duas horas descendo. Não era fadiga cardiovascular, era sobrecarga articular mesmo. Mas aqui que fica interessante: mesmo com o tornozelo reclamando, o resto do corpo seguiu firme. Coração em ritmo de passeio, respiração solta, músculos das pernas longe do limite. É como se o ciclismo tivesse criado uma margem de segurança gigante. O motor principal funcionava tão bem que sobrava energia para gerenciar a dor localizada, encontrar apoios alternativos, até compensar movimentos. Penso nos caras da antiga Tinkoff subindo o Kilimanjaro na pré temporada. Contador, Sagan, o time inteiro tratando 5.895 m como training camp de altitude. Não era exibicionismo; era aposta na transferência de adaptações. Qualquer desafio físico vira questão de tática, não de sobrevivência. Chegando no acampamento, tornozelo dolorido mas respiração normal, fico pensando na diferença prática que isso faz. Quantas aventuras a gente deixa passar porque “não está em forma”? Quantas trilhas, viagens, experiências ficam no “um dia eu faço” porque falta confiança no próprio corpo? O ciclismo entrega exatamente isso: confiança corporal. Não é superpoder, é matemática simples. Coração forte + pulmão eficiente + músculos acostumados ao esforço = autonomia para explorar o mundo sem medo de não aguentar. Claro, cada modalidade tem suas especificidades. Hiking cobra tornozelo, natação exige ombro, corrida castiga joelho. Mas quando o motor principal funciona bem, você negocia essas limitações de posição de força. A bike constrói um chassi resiliente que se adapta a qualquer terreno. Uma vez que você experimenta essa sensação de domínio sobre o próprio corpo, seja subindo pico de madrugada, pedalando 200 km ou simplesmente brincando com os filhos sem cansar, voltar ao sofá deixa de ser opção. Porque aí você entende: ciclismo não é só esporte. É liberdade sobre duas rodas. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter 7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se… Veja este post Viagem Italia – Roteiro, custos e experiências Se você é ciclista, provavelmente já se imaginou subindo o Stelvio, encarando o Mortirolo ou… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.
Não espere o desafio para se preparar
não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo não era provar nada para ninguém. Era estar fisicamente tão bem preparado que eu pudesse realmente aproveitar cada subida, cada café no vilarejo, cada curva do Stelvio sem estar destruído pelo esforço. Porque viver uma experiência assim não é só pedalar, é estar inteiro para curtir. E olha, subir gigantes como o Gavia, o Mortirolo e o Stelvio não é pouca coisa. São montanhas que marcaram a história do ciclismo, lugares onde ídolos se tornaram lendas. Eu cresci vendo essas estradas na TV durante o Giro e sempre me perguntava como seria pedalar ali. Estar naquele cenário foi muito mais do que cumprir um desafio, foi sentir na pele a energia do ciclismo em seu estado mais puro. E só consegui aproveitar cada detalhe porque cheguei preparado. Foram 38 horas de pedal em 14 dias, acumulando 20 mil metros de ascensão. Parece insano, mas não foi sofrimento. O corpo respondeu porque vinha de meses de treino estruturado e bem pensado, o que me permitiu não apenas “aguentar”, mas curtir. Esse ponto faz toda a diferença. Já vi assessorados que encararam o Caminho de Compostela com esse mesmo mindset. Não é só sobre completar os 600 km, é sobre chegar em Santiago inteiro, com energia para celebrar, sem sentir que foi uma guerra contra o corpo. A diferença entre aproveitar ou sofrer de ponta a ponta está no preparo físico feito antes. Um deles chegou para mim preocupado: “Igor, será que vou dar conta? Nunca fiz tantos dias consecutivos pedalando”. Montamos um planejamento focado em construir base sólida, trabalhar resistência em blocos longos, a força e ajustar nutrição para suportar dias seguidos de esforço. Resultado: ele não só completou o desafio, como terminou se sentindo mais forte no final do que no início. E o melhor, conseguiu aproveitar as paisagens, as paradas nas cidades históricas, os encontros pelo caminho. A ciência explica bem por que isso funciona. Preparar-se para desafios de vários dias exige não só preparo cardiovascular, mas também adaptação muscular e metabólica. Estudos mostram que treinos consistentes e direcionados aumentam a densidade mitocondrial, melhoram a utilização de gordura como combustível e ampliam a capacidade de tolerar o estresse oxidativo. Em linguagem prática: seu corpo aprende a “queimar mais limpo” e a se recuperar melhor entre um dia e outro. E tem o lado mental também. Quando você chega para um desafio já confiante de que o corpo vai aguentar, a mente relaxa. Você não passa o pedal inteiro preocupado se vai quebrar, mas aberto para curtir a estrada. Foi exatamente o que aconteceu comigo na Itália. Em vez de pedalar olhando só para o asfalto e rezando para acabar, pude levantar a cabeça, sentir o vento frio das montanhas, olhar para os vales glaciais e entender que aquele momento era único. Por isso, sempre falo: se o seu sonho é pedalar na Itália, fazer o Caminho de Compostela ou qualquer outro desafio épico, não espere o desafio para se preparar. Se prepare para chegar lá pronto, forte, e principalmente com energia para se divertir. Porque pedalar cansado qualquer um pedala. Agora, pedalar curtindo, sorrindo e colecionando memórias… isso é privilégio de quem chega preparado. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter 7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se… Veja este post Viagem Italia – Roteiro, custos e experiências Se você é ciclista, provavelmente já se imaginou subindo o Stelvio, encarando o Mortirolo ou… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.
7 Erros que estão impedindo você de evoluir
7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se você errar no pós-treino? Pois é, muita gente treina bem, mas joga fora parte do resultado porque não cuida direito da recuperação. E eu falo isso com propriedade. Já tive fases de evoluir muito só porque aprendi a respeitar o corpo depois do pedal, e também já me sabotei várias vezes por achar que era “invencível” e que recuperação era frescura. Na época em que caí, luxei o ombro e fiquei duas semanas em cima do rolo somando 40 horas, aprendi que recuperação é tão importante quanto treinar. Se eu não tivesse seguido à risca hidratação, sono e nutrição, não teria conseguido manter consistência. E não é só vivência empírica, a ciência deixa isso claro. Estudos mostram que a síntese de glicogênio é duas vezes mais rápida quando você ingere carboidrato na primeira meia hora após o exercício. Ignorar isso é literalmente perder performance que estava ao alcance. O mesmo vale para a hidratação. Quando você perde 2% do peso corporal em líquidos, sua performance já despenca, e ainda assim vejo assessorados que terminam o pedal e vão direto na cerveja sem sequer tomar água com eletrólitos. O álcool antes da reidratação atrapalha todo o processo de reposição e aumenta ainda mais a desidratação. Já vi gente perder semanas de treino por inflamações musculares que poderiam ter sido evitadas só de respeitar essa ordem: primeiro água, depois eletrólito, depois comida… e se ainda quiser, só então a cerveja. Outra armadilha é achar que terminou o treino e pode se largar no sofá. Ficar parado por muito tempo logo após o esforço atrapalha a circulação de retorno e aumenta a rigidez muscular. Movimento leve é parte do processo. Isso não significa sair para correr de novo, mas alongar, caminhar alguns minutos ou até pedalar bem leve na sequência já muda o jogo. E aqui um erro que eu mesmo já cometi: usar anti-inflamatório sem necessidade real. A dor pós-treino faz parte da adaptação. Quando você corta essa resposta com medicamento à toa, reduz a capacidade do corpo de evoluir. A ciência mostra que os AINEs bloqueiam enzimas fundamentais para a hipertrofia e recuperação. Eu mesmo já percebi que quando evitava remédio e focava em sono e nutrição, o corpo respondia muito melhor. Tem também o clássico “comer como se tivesse feito o Tour de France inteiro”. O corpo precisa de energia, mas exagerar em gordura e açúcar só gera inflamação e atrapalha a recuperação. Já acompanhei assessorados que treinavam bem, mas não evoluíam porque comiam três vezes mais do que precisavam. A nutrição tem que ser estratégica, não emocional. Outro ponto que poucos observam é monitorar sinais de fadiga aguda. Falta de apetite, insônia, dor muscular fora do padrão: tudo isso é alerta. Quando você ignora, a conta vem em forma de estagnação ou até lesão. Já vi assessorados que batiam na tecla do “quanto mais, melhor” e, no fim, passaram semanas sem progredir porque não escutaram o corpo. E o erro mais comum de todos: marcar outro treino pesado sem avaliar a recuperação. Treinar bem não é sobre fazer sempre mais, é sobre fazer certo. Repetir estímulo intenso sem dar tempo para o corpo se regenerar é a receita perfeita para overtraining. A diferença entre evoluir e quebrar está em respeitar o descanso. Por isso, da próxima vez que terminar o pedal, lembre-se: o treino não acaba quando você desce da bike. Ele termina quando você recupera. É nesse momento que as adaptações acontecem, que o corpo se reconstrói mais forte e que o esforço realmente se transforma em evolução. Quem aprende isso, aprende a jogar no longo prazo. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter Pedalar no rolo é chato? Pedalar no rolo não precisa ser chato. Eu sei que, para muita gente, a primeira impressão é de que é uma obrigação enfadonha… Veja este post Não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.
Pedalar no rolo é chato?
Pedalar no rolo é chato? Pedalar no rolo não precisa ser chato. Eu sei que, para muita gente, a primeira impressão é de que é uma obrigação enfadonha, quase como encarar uma reunião que podia ser um e-mail. Mas a verdade é que o rolo pode ser muito mais do que uma alternativa nos dias de chuva ou falta de tempo. Se você souber usar, ele vira um verdadeiro laboratório de performance, capaz de acelerar adaptações que na rua demorariam muito mais para acontecer. Eu descobri isso na pele. Teve uma época em que sofri uma queda, luxei o ombro e fiquei impossibilitado de treinar na estrada. Foram duas semanas inteiras sem sair de casa, somando 40 horas em cima do rolo. No começo parecia tortura, o tempo não passava e a mente gritava para parar. Mas aos poucos percebi que ali tinha algo poderoso. Sem distrações externas, comecei a prestar atenção em cada detalhe: cadência, respiração, posição no selim, até o simples ajuste do ventilador na frente. Quando voltei para a estrada, percebi que tinha evoluído. Mesmo sem rodar um único quilômetro no asfalto, estava mais eficiente, mais consciente do meu corpo e mais preparado para sustentar potência. E a ciência confirma isso. Pesquisas mostram que treinos indoor geram adaptações fisiológicas muito semelhantes às do ciclismo ao ar livre, desde que o estímulo seja bem estruturado. Alguns estudos até sugerem que o indoor é mais eficiente para desenvolver potência de limiar, já que elimina variáveis como descidas longas, paradas de trânsito e mudanças de ritmo não planejadas. Outro ponto importante é o estresse térmico: sem ventilação adequada, a temperatura corporal sobe mais rápido e isso aumenta a percepção de esforço. Só que esse desconforto também pode ser usado a favor, porque treinar sob calor controlado melhora a capacidade cardiovascular e aumenta o volume plasmático do sangue. Na VixCC vejo isso acontecer direto com os assessorados. Muitos, por conta da rotina, passam grande parte do tempo no rolo e ainda assim evoluem muito. Um deles, que vinha travado há meses, conseguiu romper a barreira dos 300W de FTP depois de seis semanas de treinos predominantemente indoor. Não foi sorte, foi consistência e planejamento. É por isso que sempre digo: o rolo não precisa ser inimigo. Pode ser o lugar onde você aprende a treinar de forma cirúrgica, eliminando distrações e focando apenas no que importa. Claro que nada substitui a sensação da estrada e o vento no rosto, mas se você abrir a cabeça vai perceber que pedalar indoor é uma chance de evoluir rápido e de forma precisa. Então, quando olhar para o rolo e sentir que vem aquele desânimo, lembre-se que eu mesmo passei 40 horas preso nele em duas semanas e saí mais forte. Se eu consegui transformar esse tempo em progresso, você também pode. Respira fundo, ajusta o setup e bora girar. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter Controle sua respiração Você já parou para pensar que muitas vezes não é a sua perna que falha na subida… Veja este post Não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.
Controle sua respiração
Controle sua respiração Você já parou para pensar que muitas vezes não é a sua perna que falha na subida, mas a sua respiração? A ansiedade tem um poder enorme de bagunçar isso. Quando o ciclista olha lá pra cima e vê que a serra parece não ter fim, a mente dispara: “Será que aguento?”. O coração acelera, a respiração fica curta, superficial, e o que era só uma subida vira um ataque de ansiedade disfarçado de falta de ar. Eu já passei por isso. Lembro de um treino em Domingos Martins, numa serra que parecia infinita. Minhas pernas estavam boas, mas eu me vi respirando como se estivesse em um sprint de 200 metros, mesmo estando a 12 km/h. Foi aí que caiu a ficha: eu não estava quebrando fisicamente, eu estava deixando a ansiedade comandar minha respiração. Quando ajustei para uma respiração mais profunda, ritmada, usando o diafragma, tudo mudou. O pedal ficou mais estável, o coração desacelerou, e consegui controlar a mente para focar no aqui e agora, em vez de me torturar com o topo que ainda estava distante É isso que chamo de respiração diafragmática aplicada ao ciclismo. Não é só puxar e soltar o ar. É criar um ritmo entre pedalada e respiração, como se fosse um metrônomo interno. A cada 2 ou 3 pedaladas, um ciclo completo de inspiração e expiração. Isso aumenta a captação de oxigênio, reduz a tensão no corpo e, o mais importante, acalma o sistema nervoso. Quando o ciclista consegue controlar isso, a ansiedade deixa de ser inimiga e vira combustível. Tenho vários casos na assessoria. Um aluno, por exemplo, sofria toda vez que a prova tinha subida longa. Ele dizia que a cabeça começava a entrar em pânico e, logo no início da serra, já sentia que ia quebrar. Trabalhamos juntos técnicas de respiração, e em três semanas ele conseguiu mudar completamente a experiência. Na última prova, não só subiu inteiro, mas bateu o tempo pessoal. A diferença não foi treino de perna, foi treino de respiração e mente. Respirar é básico, mas no ciclismo básico não é sinônimo de simples. Controlar a respiração é controlar o corpo e a mente na hora em que mais precisa. Da próxima vez que encarar uma subida, em vez de olhar para o topo e acelerar o desespero, olhe para dentro, ajuste o ritmo e deixe que a respiração seja o seu guia. Vai perceber como algo tão simples pode transformar o seu pedal. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter 7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se… Veja este post Não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.
A Arte de sofrer no ciclismo
A Arte de sofrer no ciclismo No ciclismo existe um paradoxo que fascina: é um esporte que machuca e cura ao mesmo tempo, que inflige dor mas entrega prazer, que leva o corpo ao colapso enquanto fortalece a alma. Eddy Merckx, o maior de todos (ou Pogacar?), dizia que a corrida é vencida pelo ciclista que consegue sofrer mais. A frase nunca foi apenas sobre ganhar uma prova, mas sobre revelar que, no ciclismo, a vitória pertence não ao mais forte fisicamente, mas ao mais resiliente mentalmente. O sofrimento na bicicleta vai muito além da dor física. Quando sofremos nos pedais, trazemos à tona tudo o que já fomos e sentimos. É por isso que tantas vezes, em subidas intermináveis ou treinos em que parece que não há mais energia, o ciclista encontra revelações sobre si mesmo (por isso gosto do Dia de Acelerar na metodologia Vix). A dor se torna um espelho. Ela mostra fraquezas, mas também abre a porta para forças que só existem porque fomos obrigados a procurá-las. A ciência ajuda a explicar essa experiência. Quando enfrentamos uma subida brutal, daquelas que fazem questionar escolhas de vida, o cérebro libera uma cascata neuroquímica: endorfinas, dopamina, serotonina, anandamida. Essa mistura transforma desconforto em euforia. Estudos mostram que exercícios longos ativam o sistema endocanabinoide natural, o mesmo afetado pela maconha, o que explica porque muitos descrevem pedais épicos como experiências quase espirituais. Não é exagero: é neuroquímica pura hahaha Quando pesquisadores bloquearam totalmente a dor dos ciclistas com opioides, eles começaram forte mas quebraram cedo, incapazes de administrar o esforço. A dor, nesse contexto, não é inimiga, mas guia. É um sistema de navegação fisiológica. Por outro lado, quando a dor é apenas atenuada, como no caso de ciclistas que receberam acetaminofeno, a potência aumenta mesmo com a percepção de esforço igual. Isso mostra que o limite raramente é físico absoluto: ele nasce da mente e da forma como interpretamos o sofrimento. O limiar de lactato talvez seja a tradução mais científica desse encontro entre dor e performance. Abaixo dele, é possível pedalar conversando. Acima, cada segundo é um diálogo íntimo com os próprios limites. Treinar nessa zona é, ao mesmo tempo, fisiologia e psicologia: um aprendizado constante sobre conviver com a queimação, respirar fundo e aceitar o desconforto como parte do crescimento. Essa relação com a dor é também cultural. Desde o ciclismo europeu das décadas de 40 e 50, o sofrimento foi romantizado. Fausto Coppi dizia que o ciclismo é sofrimento. Merckx repetia que quem não lida com a dor não vence nada. São declarações que carregam filosofia: o ciclismo é, essencialmente, um diálogo contínuo entre ser humano e limite. Na minha opinião, o público que está assistindo o tour de France em casa ou lá nas montanhas não ia apenas para ver vitórias, mas para testemunhar a resistência diante da agonia. Sofrer é espetáculo. E sofrer é também comunicação. O rosto contraído de um ciclista em plena escalada é mais do que dor muscular. Foi assim com Tyler Hamilton vencendo com a clavícula quebrada (vi pelo Dvd do meu pai), com Geraint Thomas terminando o Tour com a pélvis fraturada. Imagens de dor viram mitos, porque o sofrimento visível é traduzido em heroísmo eterno. Mas a arte de sofrer não significa ignorar sinais ou buscar dor por si só. O ciclista experiente aprende a distinguir entre dor que fortalece e dor que destrói. Para isso, recorre a estratégias mentais que transformam a percepção: visualização, segmentação em pequenas metas, dissociação quando é preciso fugir mentalmente, associação quando é hora de abraçar o desconforto. Aprende também que biomecânica correta, recuperação e treinar da maneira certa não eliminam o sofrimento, apenas garantem que ele seja produtivo, e não lesivo. No ciclismo, o máximo de dor pode coexistir com o máximo de prazer. Esse é o estado de fluxo (alguns devem ter ouvido a palvra “Flow”). Dominar a arte de sofrer é aceitar que a dor nunca desaparece, mas pode ser moldada em arte, crescimento e transcendência (aqui exagerei um pouco). Cada subida íngreme, cada contra-relógio no limite, cada treino em que parecia impossível, se transforma em metáfora: a coragem de abraçar o desconforto como caminho para se tornar mais forte. Porque pedalar é sofrer, e sofrer no ciclismo é descobrir que, por trás de cada dor, existe uma versão mais resistente, mais corajosa e mais viva de nós mesmos. Compartilhe no Whatsapp Entre na nossa Newsletter 7 Erros que estão impedindo você de evoluir Sabe aquele treino que você termina se sentindo um leão, mas que pode virar um tiro no pé se… Veja este post Não espere o desafio para se preparar Quando cheguei na Itália para encarar 14 dias de pedal pelas montanhas, meu maior objetivo… Veja este post @VIXCC 2025 – Todos os direitos reservados.